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Sul do Pará teme seca dos rios

Data: 5/11/2005
Degradação - As pessoas ouvidas destacam os atentados ao meio ambiente como causa de tudo
Depois do oeste paraense enfrentar um grande período de estiagem que resultou num decreto de calamidade pública, agora é a vez do sul do Estado também abrir discussões sobre os níveis baixíssimos de água dos principais rios que cortam a região. O Tocantins, Araguaia e principalmente o Rio Itacaiúnas passam, juntos, por um grande período de seca, onde suas águas desaparecem das veias, deixando a população a questionar sobre os porquês que envolvem esta questão.

“Será que nos é reservado o mesmo destino dos moradores do oeste do Pará?” - é a pergunta que a população em geral está se fazendo constantemente, depois de verificar que as veias hídricas dos rios que abasteciam seus municípios, deixaram de conduzir um grande nível de água. A resposta para esta indagação é muito complicada. Faz-se necessária uma explicação da meteorologia, da natureza ou quem sabe, dos órgãos responsáveis para cuidar e preservar esses recursos. Mas dá para observar que de uns anos para cá, as nascentes que alimentam esses rios têm perdido seu volume, e isto é preocupante, justamente porque a água é fonte de vida, e de acordo com alerta de pesquisadores, consta-se que ela tende a faltar no planeta daqui a algumas décadas.

Entretanto, esse futuro cinzento parece estar sendo antecipado para os habitantes da região amazônica de maneira geral. Precisamente num dos pontos do planeta de maior concentração de água, a amarga experiência de conviver com a seca, é uma realidade.

Óbidos, Faro, Itaituba, Monte Alegre, Terra Santa, entre tantas outras cidades paraenses, já viram suas águas desaparecerem; agora, Conceição do Araguaia, Itupiranga e Marabá também podem perceber que os rios que banham seus territórios estão diminuindo em concentração de água.

Viviane Pereira, assessora de comunicação do município de Conceição do Araguaia, destaca que o Rio Araguaia apresenta nível baixíssimo de água. “O rio não secava anteriormente até aparecer areia na frente de um clube que existe aqui na cidade” - afirmou Viviane. Este acontecimento, segundo ela, causou estranheza nos habitantes do município, chegando até o ponto desses moradores fazerem comparações com o que está acontecendo no oeste paraense.


Problema pode prejudicar setor pesqueiro

Em Marabá, a situação chega também a preocupar. Antônio Rodrigues Dias, presidente da Colônia Z-30 dos Pescadores, conhecido popularmente como “Bibi”, revela que a redução dos níveis de água tem acarretado também a diminuição do estoque de pescado, e, conseqüentemente, gerando prejuízo aos pescadores. Em tese, este prejuízo não se faz pelo desaparecimento total das espécies, mas porque as embarcações, por causa do nível dos rios, não conseguem se deslocar até os pontos onde se encontram os peixes.

“Bibi” tem constatado pessoalmente nesses últimos anos, não somente os rios Araguaia, Tocantins e Itacaiúnas, mas que todos os seus afluentes estão em estado de alerta com relação à quantidade do potencial hídrico. “Vamos ter brevemente um Ceará dentro de Marabá” - diz Antônio Dias ao ver a realidade dos rios que banham a cidade hoje; “o Tocantins resiste bravamente, mas o Rio Itacaiúnas já está praticamente morto” - declara o diretor da colônia, que aproveita para pedir às autoridades competentes providências urgentes a respeito do assunto.


Desmatamento é a causa dos fenômenos, afirmam pescadores

Na visão dos pescadores, o que está causando esse fenômeno são os desmatamentos ocorridos nas nascentes e margens; o uso de dragas para tirar areia e seixo no leito dos rios e também a derrubada dos açaizais. “Estes são imprescindíveis para a vida das nascentes” - revela Antonio.

“Em muitos lugares antes navegáveis do Rio Araguaia, hoje notamos que esses canais já não existem, e os que ainda persistem estão rasos demais” - comenta Antonio Dias. Outros canais já secaram, como o “Sereninho”. Alguns estão inavegáveis e outros com níveis de água preocupantes. Destes destacam-se o Sereno Grande, Rio Vermelho, Sororó Grande, Sororozinho, Rio Preto e Parauapebas que, se comparados com o volume de dez anos atrás, atualmente não podemos classificá-los como rios amazônicos, comenta Antonio.

Ainda segundo depoimento do experiente pescador e com mais de 50 anos vivendo na região, o nível de água não favorece nem mesmo a procriação de todas as espécies de peixes, que vêm diminuindo sua capacidade de reprodução com o passar do tempo. Essa escassez de peixe é, sobretudo, constatada no Itacaiúnas - revela o representante dos pescadores. Segundo ele, quando o peixe sente que o seu habitat está se modificando, acaba migrando mais cedo para outros Estados. Por isso a captura de peixe nesta região tem diminuído. “Antes pescávamos 26 espécies diferentes de pescado; hoje trabalhamos apenas com oito, entre elas o Mapará, Branca, Pescada, Tucunaré, Curimatá e Jaraqui. Dezoito espécies já desapareceram, e no meio dessas pode-se destacar o Pacu e os peixes-de-couro” -, garante Antônio.

O presidente faz um alerta às autoridades temendo que se não for tomada nenhuma providência, mais cedo ou mais tarde estaremos vivenciando a mesma situação que os moradores do oeste do Estado. “Se tudo continuar assim, daqui a quinze anos não existirá mais o pescador, porque já não se tem mais o que pescar, em virtude de que os rios não irão existir em nossa cidade”.


Degradação do meio ambiente

A degradação do meio ambiente ultrapassa todas as barreiras. Em Marabá, ilhas que antes existiam próximas à Cosanpa, à Mangueira, não existem mais, foram amputadas do leito dos rios. E no que ainda persiste joga-se lixo, contaminando as águas de quem semeia vida por onde passa. Um exemplo disto, segundo Antonio, é a Grota Caruncha, que possui um odor desagradável, não permitindo que haja aproximação de nenhum ser vivo no local. Está morta!

O Poção do Inflamável era o trecho mais fundo do rio na região, e hoje já está encalhando os barcos que chegam em Marabá carregados de peixe - informa o presidente da colônia, que possui 1.470 pescadores cadastrados, 73 embarcações de pequeno e médio porte e 4 grandes -, todas registradas conforme regulamenta a lei.

Experientes pescadores concordam que a origem de todos os problemas registrados nos rios da região começa com o desmatamento, prossegue com as queimadas e finaliza com o assoreamento tornando-os cada vez mais rasos e largos. Com isso, dizem, facilitam condições para que as águas se dispersem na superfície, levando-o à seca total como sinal de morte.

Carlos Borges Júnior, de Marabá

Local: Belém - PA
Fonte: Diário do Pará
Link: http:/www.diariodopara.com.br/

     
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